Lendo a biografia de Maria Stuart de Stefan Zweig, um belíssimo livro sobre uma mulher incontornável da história europeia, deparei-me atônito com um poema escrito em sua homenagem. Zweig transcreve um curto trecho do poema, e o resto encontrei na internet. O autor é o grande poeta francês renascentista Ronsard, mas o poema em si não parece constar de suas principais antologias.

Um pouco de contexto: Maria Stuart foi rainha da Escócia desde poucos dias após seu nascimento em dezembro de 1542. Seu pai, o rei James V da Escócia, morreu logo que ela nasceu, e sequer conheceu a filha. No leito de morte, o rei foi informado de que sua mulher dera à luz a uma menina. O rei então profetizou: “com uma mulher ela veio, com uma mulher ela irá”, referindo-se à Coroa da Escócia, que cingia a cabeça dos Stuart desde que a filha do rei Robert “the Bruce” casou-se com Walter Stuart 150 anos antes. A profecia do rei se realizou parcialmente: Maria foi a última Stuart a reinar “somente” na Escócia. Seu filho James VI herdou a coroa de sua mãe, mas quando da morte de Elizabeth I da Inglaterra em 1603, tornou-se James I da Inglaterra. Desde então os dois reinos estão unidos sob o mesmo soberno.

A vida de Maria Stuart foi extremamente conturbada e romanesca. A rainha-bebê vivia escondida e protegida, num país em constantes guerras civis no qual a vida da soberana não estava ao abrigo de ameaças. Ainda criança, grande fortuna lhe acometeu: o casamento com o herdeiro da coroa da França, o dauphin François, que tinha aproximadamente a sua idade. Aos 6 anos de idade, a pequenina Maria é resgatada espetacularmente de seu próprio reino pelo almirante Nicolas de Villegaignon (que infelizmente Zweig não menciona no livro) que viria depois a ser o líder da fracassada colônia francesa no atual Rio de Janeiro, a França Antártica.

Em segurança na França, Maria teve a formação principesca na corte mais sofisticada do mundo. Ali as artes tinham lugar de honra: a música, a poesia, o teatro, a pintura, a dança, a arquitetura, a moda, a etiqueta. A pequenina de imediato cativou os espíritos por sua doçura, e à medida que ganhava traços de mulher, também por sua beleza. O rei Henri II, seu sogro, declarou-a “a criança mais perfeita que jamais vira em sua vida”.

Com a morte do sogro em 1559, o príncipe François se tornou François II, e Maria ganhou o título de reine de France. A princesa perfeita, que já era rainha de seu país natal, tornava-se agora rainha-consorte de uma grande potência em ascenção. Porém, em dezembro de 1560, François II morre prematuramente. A morte do amado esposo e amigo, com quem Maria crescera, degradou-a na corte da França. Em maus termos com a sogra, a temível Catherine de Médicis, a sua presença na França tornara-se inútil para o reino, e perigosa para a rainha da Escócia. Pouco depois, em 1561, Maria se vê forçada pelas circunstâncias a retornar à terra-natal, onde enfim reinará como soberana titular.

François II e Maria Stuart

A partida de Maria Stuart foi dramática. A jovem de 19 anos, bela e refinada, rainha da Escócia, ex-rainha da França, com pretensões dinástica à Inglaterra, deixara na corte francesa uma marca indelével. Em particular os artistas lhe eram muito devocionados, e entre eles o célebre Pierre de Ronsard, o “príncipe dos poetas”, o maior poeta francês da Renascença. Ronsard acompanhou a princesa até o porto de onde partiria definitivamente à Grã-Bretanha, evitando atracar em portos ingleses, onde reinava a arqui-rival Elizabeth I.

Sobre a partida de Maria Stuart, Ronsard escreveu o tocante poema que Zweig transcreve parcialmente em seu livro. Aqui vai o poema inteiro, e a minha tradução em seguida:

A Marie Stuart, Pierre de Ronsard

Le jour que vostre voile aux vagues se courba
Et de nos yeux pleurans les vostre desroba
Ce jour, la même voile emporta loin de France
Les muses qui songeaient y faire demeurance
Quand l’heureuse fortune icy vous arrestoit
Et le sceptre françois entre vos mains estoit.
Comment porroit chanter la bouche des poètes
Quand, par vostre départ, les muses sont muettes ?
Tout ce qui est de beau ne se garde longtemps
Les roses et les lys ne durent qu’un printemps.
Ainsi vostre beauté, seulement apparue
Quinze ou seize ans en France, est soudain disparue,
Comme on voit d’un éclair s’évanouir le trait,
Et d’elle n’a laissé sinon que le regret,
Sinon le desplaisir qui me remet sans cesse
Au cœur le souvenir d’une telle princesse.

(tradução ao português)

Para Maria Stuart, por Pierre de Ronsard

No dia em que vossas velas às ondas se lançaram
E de nossos tristes olhos, vossos olhos roubaram
Então, as mesmas velas levaram longe de França
As musas que aqui sonhavam viver em segurança
Quando feliz Fortuna ainda aqui vos mantinha
E em vossas nobres mãos pôs o cetro de rainha.
Da boca dos poetas não sairá mais nada
Pois com vossa partida, as musas estão caladas.
Tudo aquilo que é belo morre e não persevera
As rosas e os lírios só duram uma primavera.
Assim é vossa beleza, somente recebida
Há quinze anos em França, e ora de partida,
Tal como some no céu um raio na tempestade,
E dela nesta terra deixa para sempre a saudade
Deixa no coração para sempre a tristeza
E a lembrança indelével de uma grande princesa.

Pierre de Ronsard

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