O livro é certamente um clássico, do qual muito se falou e ainda se fala. Darcy Ribeiro, que foi uma figura sem dúvidas fascinante, concluiu-o no exílio uruguaio a que foi forçado durante a ditadura militar. Tendo sido ministro-chefe da Casa Civil do governo João Goulart, pouco antes do golpe de 1964, o famoso antropólogo não era figura bem-vinda no regime militar que derrubou o presidente de esquerda. A obra “O Povo Brasileiro” é de fôlego, abarcando mais de cinco séculos da história nacional — pois começa antes do descobrimento em 1500 — , e perpassando diversos domínios do conhecimento, como a historiografia, a sociologia, a economia e a política. Talvez fosse essa a visão de Darcy sobre o que é ser antropólogo: ter uma visão holística sobre a atuação do homem em sociedade. No entanto, isso está longe de facilitar a leitura do livro.

Demorei muito para ler “O Povo Brasileiro”, e parei por duas vezes de lê-lo, para enfim retomar. Não me sinto qualificado para fazer um julgamento definitivo ou técnico sobre a qualidade do livro, mas me sinto necessitado de externalizar as impressões e sentimentos que tive durante essas longas semanas que me tardaram para concluí-lo.

O primeiro sentimento, infelizmente, é de tédio. Passo rapidamente por esse ponto, mas é impossível não ressaltá-lo. A edição de bolso da Companhia das Letras, que é a que possuo, tem somente umas 400 páginas de texto, mas para mim foi extremamente penoso chegar até o fim. O livro avança a um ritmo muito lento, falando muita coisa sem dizer nada de concreto. Eu diria que se trata de obra ambiciosa demais para ser bem-feita em somente 400 páginas, e longa demais para a superficialidade que consegue atingir.

O segundo ponto é mais teórico. “O Povo Brasileiro” quer abarcar praticamente tudo, pincela sobre eventos históricos de dimensão mundial, nacional ou local como se fossem todos parte de um grande contínuo lógico, como se houvesse por trás daquilo alguma teoria, alguma lei, que no entanto nunca fica clara qual é. O autor afirma no prefácio que o livro é criticado pela esquerda por não ser marxista, e criticado pela direita por ser marxista. Parece-me um artifício retórico para vender o livro a um público mais amplo, pois o livro tende claramente a uma visão marxista da história e da sociedade. Em todos os capítulos há o antagonismo entre classes, a ideia de opressão e exploração é onipresente, e subjaz ainda uma “teoria da História”, isto é, uma noção de lei da História na qual os indivíduos são meramente produtos passivos.

Essa visão meio marxista da História Darcy Ribeiro enriquece com as particularidades geográficas das diferentes partes do Brasil. Segundo o tipo de solo ou de ocupação, tipos sociais distintos se formaram. Esses tipos sociais merecem cada um um capítulo, na quarta parte do livro. São estes: o crioulo, o caboclo, o sertanejo, o caipira, os matutos, os gaúchos e os gringos. A ordem escolhida reflete a cronologia da estruturação desses grupos. Definidos primordialmente pela sua origem étnica, esses tipos sociais sintetizam uma forma de ocupar o espaço, com suas próprias tradições culturais e técnicas econômicas. Aí emerge Darcy o Antropólogo com aguçado olhar etnográfico, descrevendo por vezes a vida desses homens e mulheres como se estivesse escrevendo um romance.

Vale a pena dedicar algumas palavras a cada um desses grupos, que ele descreve desde sua gênese até sua consolidação no “Povo Brasileiro” nos dias de hoje. O crioulo é o povo de matriz africana, seja o negro ou o português misturado ao africano, presente no solo nacional desde os tempos canavieiros e constituindo a principal mão de obra da maior parte da nossa história. De longe é o grupo mais pisado e maltratado entre os descritos por Darcy. Sua atividade é a do trabalho na lavoura, sempre servindo, nunca aspirando a nada além disso. Liberado da escravidão, o negro se tornou personagem marginalizado da sociedade, abandonado por seus antigos mestres e tratado como inferior.

O caboclo é o elemento indígena, ou misturado. Tão ou mais antigo que o elemento africano, tão ou mais trágico quanto ele. Historicamente, a integração indígena à sociedade brasileira se deu de duas formas antagônicas: por um lado pela servidão, por outro pela organização em torno de missões jesuíticas. Os caboclos foram os colonizadores das cidades e vilas amazônicas, os exploradores das drogas do sertão e, mais recentemente, da borracha. Requisitados em períodos de forte atividade, mergulharam na miséria com o eclipsamento de seus produtos.

Terceiro em ordem cronológica e de pobreza é o sertanejo, o brasileiro que se embrenhou nos sertões do Nordeste ora para combater os indígenas mais hostis, ora para assistir a produção canavieira litorânea com a produção de carne e couro. Vivendo em terra árida e inóspita, esse povo também mergulhou na miséria com o declínio da economia à qual estavam associados. Permaneceram na terra, vivendo daquela economia parca, desenvolvendo sua cultura e suas formas de sociabilidade ancoradas numa religiosidade profunda que desvencilhou mais de uma vez para o messianismo fundamentalista.

O caipira é o outro grupo trágico e paupérrimo que ganha um capítulo. Trata-se aqui inicialmente do homem branco, livre, que vendia seu trabalho para atividades de mineração e agricultura nas Minas Gerais e em outras partes do Sudeste. Descendentes dos bandeirantes, dos primeiros brancos a chegarem ali, a se misturarem aos índios e deles inclusive absorver a língua, o nheengatu, falado em São Paulo até fins do século XVIII. O caipira, ele também, caiu em desgraça com o fim da era do ouro. Era um homem livre, não adaptado ao ritmo científico exigido na lavoura, para a qual os grandes cafeicultores preferiam o escravo ou o imigrante europeu. Tornou-se uma figura itinerante, de subsistência precária e sazonal. Darcy não gosta da imagem do caipira eternalizada por Monteiro Lobato no Jeca Tatu, preguiçoso, ineficaz, “ancorado desajeitadamente sobre os calcanhares, a puxar fumaça do pito, atirando cusparadas para os lados”. Na visão do antropólogo, o “intelectual-fazendeiro” que era Monteiro deixou de ver “o traumatismo cultural em que vivia o caipira, marginalizado pelo despojo de suas terras, resistente ao engajamento do colonato e ao abandono compulsório de seu modo tradicional de vida” (p. 352).

Constante no livro, Darcy retrata seus personagens como vítimas de algum evento histórico que os arremessou à miséria, e cuja grande saída seria a reforma agrária, propugnada repetidamente no livro. A pobreza na obra de Darcy é uma condição primordialmente política, derivada do desdém das classes dominantes e das injustiças que perpetraram contra os dominados. Também é assim para os matutos, ocupantes da costa de Santa Catarina, descendentes de açorianos que vieram na promessa de ser proprietários e se condenaram a uma vida de mera subsistência. Os gaúchos, espécie de sertanejo dos pampas, foram mais afortunados, e merecem menos palavrório.

Os gringos — alemães, italianos e japoneses — que vieram em massa ao Sul do Brasil, ganham um tratamento levemente diverso do antropólogo. De todos os grupos sociais do Brasil, são os mais tardios e os de pior integração cultural. O bilinguismo de muitos desses grupos é visto como entrave à assimilação, embora Darcy não veja o bilinguismo (ou mesmo monolinguismo) dos falantes de nheengatu da mesma forma. A primeira leva de imigrantes, os pioneiros, é composta de homens e mulheres pobres e lutadores, trabalhando para grandes fazendeiros ou cultivando suas ínfimas propriedades, mas abençados pela fertilidade da terra. As levas seguintes já são mais afortunadas, beneficiando da organização social criada pelos seus antecessores. Empreendedores, os imigrantes se envolveram na vida urbana, na política, na industrialização do país. Tornaram-se os novos exploradores, os novos patrões, permeáveis a ideologias racistas e desdenhosos dos outros brasileiros.

A narrativa de Darcy é enfadonha, pois é tendenciosa. Sem menosprezar a empatia que ele evoca com a pobreza que viceja no Brasil, é frustrante a simplicidade quase pueril com que ele explica progresso e pobreza. O pioneirismo dos imigrantes europeus no desenvolvimento industrial é atribuído ao seu bilinguismo, permitindo azeitar contatos nos países industriais. A pobreza extrema em todo canto é devida à expropriação fundiária, por vezes ocorrida séculos antes. Nenhuma menção a produtividade, capital humano (ok, não precisava usar esse termo), instituições. No finalzinho, ele aventa que o sucesso das colônias britânicas como EUA, Canadá e Austrália poderiam, quem sabe, estar ligadas às instituições herdadas do Reino Unido (que para ele, estranhamente, são atribuíveis ao “velho” Oliver Cromwell…), sem detalhar quais aspectos dessas instituições ajudam no progresso. Será a garantia da propriedade privada? A liberdade de empreendimento? A democracia?

As partes que mais me entretiveram no livro foram as duas primeiras, nas quais ele faz um apanhado histórico dos primeiros séculos de colonização e do choque de culturas causado pelo contato do europeu, indígena e africano. São partes em que não só a verve literária de Darcy está em ótima forma, como seu rigor analítico parece menos turvado por sua ideologia política. Ao falar do passado distante, ele cita constantemente fontes (coisa que pouco faz nos capítulos etnográficos) com exemplos suculentos e inesquecíveis.

A terceira parte, chamada “Processo Sociocultural”, provavelmente resume seu pensamento teórico. Narra alguns conflitos fundadores da nossa sociedade, tais como revoltas regionais, e traça origens da nossa elevada desigualdade econômica. Pinta o quadro triste da coexistência de uma pobreza profunda e do fausto reluzente das elites. Conduz o leitor à urbanização desenfreada que viveu o Brasil no século XX, e a consequente favelização das grandes cidades.

E como desenvolver o Brasil? Como resolver tudo isso? Aí é para rolar os olhos. Após elogiar a fundação de diversas estatais, em particular por Getulio Vargas (do mesmo PTB que seu chefe João Goulart), ele conclui: “Essa política de capitalismo de Estado e de industrialização de base provocou sempre a maior reação por parte dos privatistas e dos porta-vozes dos interesses estrangeiros.” Sua crítica à pobreza e sua análise de suas causas dá lugar frequentemente a essa espécie de discurso panfletário e ufanista.

O ufanismo de Darcy o faz denunciar as injustiças, sem perder de vista as virtudes do país, em particular no que diz respeito à mistura racial. Os negros e os brancos, embora desiguais, não são inimigos nessa pátria multiétnica. O Brasil é uma “nova Roma”, uma Roma melhorada pelo fato de ser “lavada no sangue africano e indígena”. O Brasil triste de Darcy emerge às vezes como um país surpreendentemente maravilhoso, exemplar e autônomo, com seus grandes artistas, suas paisagens, sua Iemanjá.

Sobre Iemanjá, Darcy Ribeiro deseja que sua festa, no fim ou começo do ano dependendo do Estado, aposente de vez “o velho e ridículo Papai Noel, barbado, comendo frutas europeias secas, arrastado num carro puxado por veados. Em seu lugar, surge, depois da Grécia, a primeira santa que fode. A Iemanjá não se vai pedir a cura do câncer ou da AIDS, pede-se um amante carinhoso e que o marido não bata tanto” (p. 241). Não fica claro, nesse trecho, se o problema é Papai Noel ou o próprio Natal. (NB: Darcy era católico).

O Povo Brasileiro é um livro para quem pensa como Darcy Ribeiro. Conheço quem adore Darcy e seu livro. Eu não me arrependo da leitura, mas hesitaria em recomendá-la. O livro contém coisas interessantes, mas a meu ver, juntando-as todas, poderíamos ter um belíssimo ensaio de umas 40 páginas. O resto é uma enrolada especulação sobre como alguns tipos sociais foram prejudicados por tal e tal evento histórico e os levaram à pobreza, que será resolvida com a reforma agrária para a maior parte dos casos. O livro é um híbrido de análise, propaganda e poesia.

Para quem ama o Brasil — e essa é a imensa maioria do povo brasileiro — o ufanismo de Darcy é por vezes prazeroso de ler. Crente no nosso país, embora foque nas tristezas da pobreza, suas várias faces e cores, ele exalta as virtures do povo brasileiro. Faz referência explícita a Raízes do Brasil ao lembrar os traços do brasileiro segundo Sergio Buarque de Holanda: a cordialidade, o espírito aventureiro, a sobranceria e a miscigenação. Para Darcy, embora tenham uma face sombria, essas qualidades são o que temos de bom. O que é triste em nós é justamente o aspecto servil, humilde, resignado e diligente do pobre. Darcy vê um futuro brilhante para a nova Roma, a Roma melhorada, “mais generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa província da Terra” (p. 411). Esperemos que nisso ele esteja certo.

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