Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago

Inspirado pela pandemia, resolvi enfim ler o clássico do escritor português. Fui motivado também por uma conversa recente com um amigo francês no Brasil que se dizia encantado por Saramago, tendo lido todos os seus livros. Fiquei meio envergonhado, pois só lera o Conto da Ilha Desconhecida, e ignorava suas obras mais famosas, como a História do Cerco de Lisboa, Ano da Morte de Ricardo Reis, Intermitências da Morte e, claro, o celebérrimo Ensaio Sobre a Cegueira.

O livro me deixou bastante decepcionado. Entendo que algumas pessoas se deixem cativar pela maneira como o livro é escrita, que lembra levemente uma fábula, com personagens bastante idealizadas e anônimas. As personagens são identificadas por funções, profissões ou características físicas: o médico, a mulher do médico, a rapariga de óculos escuros, o menininho estrábico, o velho da venda preta, o “primeiro cego”, a mulher deste, etc. São personagens mecânicos, pouco profundos e relativamente sem graça.

O roteiro da história é absolutamente cativante, e a criatividade de Saramago deve ser louvada. Uma epidemia misteriorsa sacode o país — um país não nomeado — cegando as pessoas pouco a pouco de maneira indolor e instantânea. A coisa é claramente contagiosa, visto que as pessoas com quem os cegos têm contato acabam cegando rapidamente também. O infeliz acometido pela “doença” vê somente uma luz branca, razão pela qual um assessor do ministério da Saúde batiza-a de “mal branco”. Após um pouco de hesitação, o governo decide tomar decisões enérgicas, e isolar os cegos num hospício desativado. A maior parte da história se passa dentro do hospício, contando a rotina terrível do isolamento imposto aos primeiros cegos.

A protagonista do livro é a mulher do médico (um oftalmologista), que de maneira inexplicável jamais sofre da doença. Ela vê, porém mente que está cega para que seja levada junto do marido à quarentena forçada no hospício. No início são poucos os internados: o primeiro cego (um paciente do ofalmologista), o médico, sua mulher, uma prostituta (a rapariga de óculos escuros), um rapazinho estrábico. Logo chegam mais: um ladrão de carros (que roubou o carro do primeiro cego), um velho caolho com uma venda preta, a mulher do primeiro cego, e assim por diante.

A doença em si já sendo esquisitíssima, é de se reconhecer que a maneira veloz e brutal com que o governo lida com ela é ainda mais. O isolamento faz sentido, mas na prática o governo aparentemente democrático dessa nação fictícia transforma, numa questão de dias, a sua política sanitária em um campo de concentração. Os cegos são tratados de forma desumana: um altofalante (“altifalante” em português lusitano) anuncia regras draconianas, entre as quais o fato de que os soldados atirarão para matar em qualquer infectado que tente escapar.

De fato, em uma questão de dois ou três dias, tragédias inomináveis ocorrem. Cegos são fuzilados pelos soldados, e à medida que mais pessoas começam a chegar, conflitos começam a emergir. Quem pega a comida, como reparti-la, e assim por diante. Depois de algumas semanas, um grupo de uma das camaratas resolve se unir numa banda criminosa que monopoliza o acesso à comida e exige pagamentos para reparti-la com os demais. São os “malvados”, assim denominados no livro, e disso realmente se trata: há o grupo dos bonzinhos (os primeiros cegos) e os malvados, que fazem as malvadezas o mais previsíveis possível: primeiro exigem pagamentos, depois exigem sexo, dando ensejo às cenas mais bizarras do livro.

A mulher do médico, enquanto isso, assiste a tudo com os olhos perfeitamente sãos. A situação sanitária se deteriora rapidamente no hospício, com os cegos jogando lixo pra lá e pra cá, e sobretudo defecando e urinando em lugares inadequados. O ar se torna podre e insuportável. Mas ela não revela que vê, recusa-se a organizar aquela baderna, a assumir autoridade. Não fica claro de imediato por que ela se dá ao trabalho de esconder esse fato tão útil e vantajoso. Mais para o meio do livro, ela evoca o medo de se tornar escrava dos cegos. Porém — e isso encapsula parte do que é tão fraco no livro — esse raciocínio não é dissecado, ponderado, refletido. De fato, trata-se de uma conclusão muito pouco óbvia.

Eventualmente a mulher do médico, que é uma espécie de heroína do livro, resolve fazer algo de “heroico”: ela mata o líder dos “malvados”, o que desestabiliza o campo do Mal mas inicia uma guerra aberta. Os bonzinhos mais sofrem do que outra coisa com essa guerra, até que uma mulher resolve atear fogo no hospício, forçando todo mundo a sair para fora e deparar-se com os portões do hospício abertos. Todo mundo havia ficado cego, não havia mais soldados guardando. Os amigos da primeira camarata (os primeiros cegos) ficam juntos errando pela cidade, guiados agora pela mulher do médico, que teve enfim a decência de revelar que via. Eles vagueiam até se instalarem na antiga casa do médico, onde conseguem ter uma vida mais ou menos decente, limpar-se e ter um simulacro de civilização. Um dia, de repente, a visão lhes volta, e assim acaba o livro. Ou mais ou menos assim.

Na verdade o livro acaba com uma menção meio misteriora à cegueira: somos todos cegos, mas de maneira diferente, e coisas do tipo. Frases assim salpicam o livro, sem que fique muito claro o que se quer dizer além de fortes clichês: o pior cego é o que não quer ver, e coisas do tipo. Na verdade não há filosofia, teologia ou sequer política no livro. Há uma história interessante, mas personagens fracos. O humor do autor também é extremamente enfadonho, com menções contínuas a verbos e adjetivos relativos à visão, e com cenas supostamente cômicas em que os cegos se acham fazendo coisas como se tivessem bons olhos. Talvez eu esteja sendo severo demais, mas confesso que não houve uma vez sequer no livro em que achei um trecho genuinamente engraçado, o que é realmente uma pena.

Apesar de ser um livro fraco em termos de desenvolvimento dos personagens, o livro é provocante. A tese do livro é que o desaparecimento instantâneo de um sentido — a visão — teria por consequência a desumanização da humanidade. Seria o fim da civilização. Os homens seriam sujos, perderiam direções, tornar-se-iam animais, pior que animais, violentos, perdidos, em via à extinção. A imagem é aterradora, e o colapso da civilização que o livro descreve é instigante (eu sonhei com o livro durante os dias em que eu o estava lendo).

De fato é difícil desprezar a importância da visão em nossas vidas: o fato de podermos, na ausência de som, distinguir objetos, pessoas, ameaças. Que possamos observar movimentos, e assim calcular os nossos. Que possamos reconhecer locais, coisas. Uma epidemia de cegueira, tal como descrita no livro, provavelmente teria efeitos absolutamente dramáticos.

Frente à débâcle, o homem busca ainda um significado, uma maneira de guardar a esperança, de mover adiante. No livro, a amizade dos primeiros cegos os une, e ao final um casal se forma entre eles (o velho caolho e a rapariga de óculos escuros). No final, o velho tem alguma satisfação na epidemia, que lhe retirou de uma solidão crônica e inclusive lhe arranjou uma parceira. (Esse aspecto lembra um pouco La Peste de Albert Camus, em que um dos personagens acha mais sentido em sua vida durante a peste do que quando ela cessa).

No fim, trata-se de um livro cheio de eventos extraordinários e inverossíveis, que se acumulam de uma forma tumultuosa sem se aprofundar realmente em nenhum. Infelizmente ficou-me a impressão de que não interessava ao autor aprofundar-se dessa maneira, mas agradecemos à sua mente criativa por ter provido um entretenimento instigante para estes tempos de peste que são os anos de 2020–2021.

Economics, Brazil, books, and travels.

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